segunda-feira, 18 de maio de 2020

LGBTIs vivem acirramento de violência familiar em isolamento social

LGBTIs vivem acirramento de violência familiar em isolamento social

Vítimas têm dificuldade de denunciar pais e mães

A crise global causada pelo novo coronavírus "está exacerbando as dificuldades da população LGBTI", reconheceu a Organização das Nações Unidas (ONU) em um comunicado divulgado em abril. A ONU explicou na época que essa minoria "muitas vezes encontra discriminação e estigmatização ao buscar serviços de saúde, e é mais vulnerável à violência e outras violações dos direitos humanos". No Dia Internacional de Combate à LGBTfobia, comemorado hoje (17), LGBTIs ouvidos pela Agência Brasil que trabalham no acolhimento a essa população chamam a atenção para o cruzamento dessa forma de discriminação com as dificuldades enfrentadas por todos diante da maior pandemia das últimas décadas.

Gestora de uma rede de apoio emocional que já realizou mais de 100 atendimentos a LGBTIs no Rio de Janeiro, a vice-presidente do Grupo Arco-Íris, Marcelle Esteves, ouve diariamente os desabafos de pessoas que perderam seu sustento com a crise, tiveram que se confinar em lares em que não são aceitas e sofrem violências físicas e psicológicas por parte das próprias famílias.

"A gente atende os mais variados públicos. Desde aquele indivíduo que é estudante e mora com os pais até aquele que já tem o seu escritório e nesse momento perde o seu sustento e fica refém dos familiares. E qual escolha ele tem? Volta para a família? Vai para a rua?", lamenta a psicóloga, que atende com frequência casos de depressão. "A autonomia financeira é primordial. Sem ela, você fica sem o seu direito de escolha, fica refém do outro, e muitos acabam reféns de suas próprias famílias".

Uma pesquisa internacional realizada com 3,5 mil homens gays, bissexuais e transexuais pelo aplicativo de relacionamentos Hornet confirma a percepção da psicóloga. Segundo noticiado pela Fundação Thomson Reuters, na terça-feira (12), 30% dos entrevistados responderam que não se sentem seguros em casa durante o isolamento. Marcelle destaca, entretanto, que a violência é ainda mais severa contra a população transexual, que tem sua identidade negada por familiares. "Tenho jovens em atendimento que preferem ir para a rua e correr o risco de se contaminar, porque não estão suportando ficar nas suas casas".

Mesmo que a LGBTfobia já tenha sido declarada crime pelo Supremo Tribunal Federal (STF), muitas vítimas relatam dificuldades em denunciar familiares próximos, como pais e mães, e se veem sem ter onde buscar abrigo após uma denúncia, conta Marcelle, que muitas vezes tenta aconselhar as vítimas a buscar amigos. "É importante que essa pessoa rompa com esse círculo de violência, se não ela pode acabar sendo morta".  

Além do acolhimento e aconselhamento de vítimas de violência doméstica, o Grupo Arco-Íris tem reunido doações para atender com cestas básicas a um cadastro de 3 mil LGBTIs em situação de extrema vulnerabilidade no estado do Rio de Janeiro. Desde que o isolamento social começou, Marcelle conta que os pedidos de ajuda para ter o que comer não pararam de chegar. Entre as situações mais difíceis está a de parte da população trans que, excluída do mercado de trabalho, depende da prostituição para sobreviver.

Na Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro, o trabalho desenvolvido para a inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho se tornou "quase impossível", lamenta o coordenador, Nélio Giorgini. Com o pai internado em uma unidade de terapia intensiva há 14 dias, com covid-19, Nélio conta que vive desde março o período de trabalho mais intenso desde 2017, quando assumiu o cargo.  

"O que tem vindo até nós são relatos desesperadores", desabafa. "São pessoas que estão passando fome, pessoas que precisam de abrigo", diz ele, que não deixa de comemorar vitórias pontuais, como a contratação recente de um jovem trans por uma rede de hipermercados.

A coordenadoria tem ajudado na distribuição de cestas básicas, confeccionou máscaras e trabalha em busca de vagas em abrigos municipais para pessoas LGBTIs desabrigadas e em situação de rua. Além disso, estão previstas reuniões com a iniciativa privada para buscar apoio e emprego para essa população, além da ajuda a iniciativas como a Casa Nem, que abriga pessoas trans em situação de vulnerabilidade no Rio de Janeiro. O abrigo é mantido por doações e a mobilização de ativistas criou um financiamento coletivo para receber ajuda no período da pandemia.

Fundador da Casa 1, lar de acolhimento para a população LGBTI na capital paulista, Iran Giusti percebeu com a crise um retorno de ex-moradores que já haviam se estabelecido fora do acolhimento. "Aumentou significativamente por conta das demissões. Como, em geral, esses jovens têm uma baixa escolaridade, os trabalhos em que atuavam eram essencialmente os de serviços que deixaram seus funcionários completamente desamparados", conta Giusti, que têm ajudado essas pessoas com questões como a obtenção do auxílio emergencial. "Como os jovens que já estavam acolhidos e acolhidas entraram em confinamento, infelizmente, não conseguimos receber novos".

Giusti narra histórias parecidas com a que Marcelle ouve no acolhimento online no Rio de Janeiro. "Percebemos uma mudança no perfil de quem pede ajuda, sendo agora jovens com um perfil de maior independência, que trabalhavam, estudavam e conseguiam conviver relativamente bem com a família. Com o isolamento, muitas situações ficaram insustentáveis".

Um grupo de especialistas em direitos humanos da Organização das Nações Unidas emitiu um comunicado conjunto no último dia 14 em que pede atenção dos países à saúde e às violações de direitos humanos da população LGBTI no contexto da pandemia. O documento destaca em um trecho que, "ao ficar em casa, crianças, adolescentes e adultos LGBTI se veem obrigados a suportar uma exposição prolongada a membros da família que podem não aceitá-los, o que aumenta as taxas de violência doméstica, agressões físicas e emocionais, assim como danos à saúde mental".

No comunicado publicado em abril, a ONU já havia chamado atenção para uma tendência de acirramento de problemas sociais. "A covid-19 está criando um círculo vicioso em que altos níveis de desigualdade alimentam sua disseminação, que, por sua vez, aprofunda as desigualdades", dizia um trecho do documento.

No Brasil, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) lançou em abril uma cartilha sobre prevenção ao coronavírus voltada especificamente para a população LGBTI.

O texto afirma que "lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros estão expostos  ao novo coronavírus da mesma forma que o resto da população. Ainda assim, muitas dessas pessoas vivem num contexto de extrema vulnerabilidade social, o que pode influenciar no acesso a direitos como a saúde".

Além das recomendações gerais de higiene e distanciamento social, a cartilha traz orientações sobre questões específicas, como a atenção ao cancelamento de cirurgias eletivas, citando as do processo transexualizador.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Vigilância faz inspeção em supermercados e padarias no Rio


Vigilância faz inspeção em supermercados e padarias no Rio 

 

Objetivo é cumprir regras de prevenção e combate ao coronavírus

 

A Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses da Prefeitura do Rio de Janeiro começa hoje (20) a fazer inspeções em supermercados, mercados, hortifrútis e padarias. A intenção é o cumprimento das novas regras de prevenção e combate ao coronavírus previstas para o setor de alimentação.


Os fiscais vão verificar, por exemplo, se os estabelecimentos disponibilizam álcool 70% em gel já na entrada para a limpeza das mãos. Os locais precisam ainda manter lixeira apropriada para o descarte de máscaras usadas pelo consumidor. Os agentes vão orientar também sobre a higienização obrigatória dos carrinhos e das cestas. Deve ser evitado o autoatendimento na venda de pães.


O superintendente de Educação da Vigilância Sanitária, Flávio Graça, destacou que o órgão investiu em ações educativas, preparando os estabelecimentos para as medidas preventivas que serão agora supervisionadas pelas equipes.


Na última sexta-feira, foi realizada uma palestra online que para mais de 50 profissionais que atuam no ramo de alimentação, entre eles, representantes da associação de panificadoras do município, médicos-veterinários de cooperativas, responsáveis técnicos, nutricionistas e donos de comércio.


“A iniciativa foi muito bem recebida e já estamos organizando palestras para outros segmentos. Como tudo é novo em relação à covid-19, os protocolos de prevenção e combate acabam mudando, exigindo atualização constante”, disse o superintendente.


Entre as medidas específicas de rotina de higiene estão a limitação de acesso a uma pessoa por família; a demarcação do piso com sinalizadores para manter o distanciamento de um metro e meio entre os clientes; e o controle do número de pessoas para evitar aglomerações.


A coordenadora de Alimentos da Vigilância Aline Borges disse que as medidas são fundamentais para avançar na prevenção e minimizar os riscos de contaminação. Ela ponderou, entretanto, que precisam ser adotadas de forma correta, de acordo com os protocolos higiênico-sanitários.


“Para que o comércio se ajuste às novas práticas, começamos com orientações como as que envolvem a limpeza dos carrinhos e das superfícies, que são os pontos de maior contaminação, que exigem higienização constante.”

Cestas básicas

 

A Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos da Prefeitura do Rio também começou hoje (20), no Riocentro, a distribuição de cestas básicas para taxistas auxiliares de até 39 anos, inclusive os que completam a idade ainda em 2020. É o último grupo de taxistas a ser contemplado, devendo chegar a cerca de 5.500 profissionais que pagam diária.

A distribuição será feita em dois dias. Nesta segunda-feira, recebem as cestas os taxistas com nomes de A a J, e na quarta-feira (22), com nomes de K a Z. Por causa do feriado, amanhã não haverá entrega de cestas básicas.

Os beneficiários recebem as informações por meio do aplicativo Taxi.Rio. Para fazer a retirada da cesta, o motorista precisa apresentar o Cartão de Identificação do Auxiliar de Transporte (CIAT) e documento oficial com foto.

Ambulantes legais

 

Ambulantes com nomes iniciados por F e J recebem hoje cestas básicas em 12 postos de inspetoria da Guarda Municipal. O atendimento será feito até as 16h. Os autônomos precisam apresentar a licença e documento com foto para receber o benefício.
 

Visitas

 

As visitas a pacientes internados nas unidades da rede municipal de saúde estão suspensas enquanto durar a pandemia do novo coronavírus na cidade.


Resolução publicada na última sexta-feira, no Diário Oficial do município, recomenda que no momento da internação seja informado um número de telefone celular, que tenha o aplicativo WhatsApp instalado, para que sejam transmitidas informações sobre a evolução do tratamento do paciente. Deverá ser feito um relatório clínico diário, com horário definido pela equipe de gestão da unidade a ser enviado ao familiar enquanto o paciente permanecer internado.




Edição: Maria Claudia

sábado, 7 de março de 2020

Mulheres que salvam o mundo


SP faz hoje evento em comemoração ao Dia Internacional da Mulher
Secretaria oferece serviços exclusivos para as mulheres


Publicado em 07/03/2020 - 11:55 Por Ludmilla Souza - Repórter da Agência Brasil - São Paulo



Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a Prefeitura de São Paulo realiza neste sábado (7) o evento “Lugar de Mulher É Trabalhando Onde Ela Quiser”. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho leva ao vão-livre do Masp, na Avenida Paulista, serviços exclusivos para as mulheres. Ao todo serão mais de 2.500 vagas de emprego, 1.400 vagas em cursos de qualificação profissional, orientação para quem quer se tornar empreendedora, além de palestras e oficinas voltado ao público feminino.

O Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (Cate) oferece oportunidades de emprego para diversos setores em comércio e serviços. Para ser atendida pelo Cate, a interessada deverá apresentar RG, CPF, carteira de trabalho e número do PIS.

As mulheres que quiserem se qualificar podem se inscrever para cursos em diversas áreas. A secretaria oferece uma oficina sobre hábitos de alimentação saudável e a equipe do Mãos e Mentes Paulistanas, programa que promove o artesanato na cidade, está no local fazendo o credenciamento e o teste de habilidades das artesãs pré-credenciadas. As aprovadas no teste poderão participar de feiras e eventos da prefeitura de São Paulo.

Quem quiser começar um negócio próprio pode se inscrever em uma das turmas do Fábrica de Negócios e do Mais Mulheres, programas da Ade Sampa que impulsionam novos negócios de empreendedoras paulistanas. As participantes podem também assistir a palestras e oficinas com foco no empreendedorismo feminino, mercado de trabalho e diversidade.

Por meio da Fundação Paulistana, as interessadas terão a oportunidade de se inscrever em cursos voltados ao setor de sustentabilidade, gestão administrativa e tecnologia. Entre as capacitações oferecidas estão ressignificação de resíduos sólidos, produção de alimentos em agroecologia, programação web e assistente administrativo.

O evento conta ainda com a presença de parceiros como a Defensoria Pública, emitindo ofícios para mulheres que desejam participar do Tem Saída e o CRN3 - Conselho Regional de Nutricionistas com orientações sobre alimentação saudável.
Edição: Valéria Aguiar


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Baby, Baby


"Baby", de Gal e Caetano: uma paródia elaborada da antropofagia

Categoria: Artigos
Criado: Terça, 02 Julho 2019 09:16
Publicado: Quarta, 03 Julho 2019 09:16
Escrito por Renato Contente (imagem: Hana Luzia e Luisa Vasconcelos)


 


Desde antes de Baby, antes mesmo de Domingo (1967), álbum bossanovista que marca a estreia dos dois, Gal já era um alter ego feminino do compositor. Talvez por isso mesmo, ela também era uma espécie de protótipo de modernidade para o qual ele projetava os experimentos estéticos que o inquietavam. O próprio “autoritarismo terno” do eu-lírico de Baby ao seu interlocutor, em relação ao que “você precisa” para obter um consumo cultural moderno, evoca o jogo de espelhos dos dois corações vagabundos.

Embora os gestos fundantes do Tropicalismo sejam as performances de Alegria, alegria, com Caetano Veloso ao lado dos Beat Boys, e Domingo no parque, com Gilberto Gil e os Mutantes, no Festival da Record de 1967, Baby marcou a popularização do movimento e facilitou sua adesão social. Afinal, com sua cínica ternura, absolveu o Tropicalismo de parte das controvérsias que o tinham como alvo.

Baby se despedia de 1968 como a terceira canção mais tocada do ano, atrás apenas de Hey Jude, dos Beatles, e Viola enluarada, de Marcos Valle e Milton Nascimento. A 29ª colocação nas paradas de sucesso também pertencia a Gal: Divino maravilhoso, de Caetano e Gil. A enfática chamada para estarmos atentos e fortes diante da ditadura militar havia sido apresentada pela primeira vez ao público no Festival da Record daquele ano. Com uma performance tropicalista até a medula, a cantora demarcava em público a persona política que assumiria na música popular brasileira até o início da década de 1970.

O sucesso de Baby havia garantido a Gal o privilégio de estrear em um álbum solo naquele mesmo 1968, mas, após o exílio de Caetano e Gil, a gravadora reagendou a estreia do disco já pronto para março do ano seguinte, temendo represálias.

Sem chão com a partida de seus principais alicerces afetivos e artísticos, Gal tomaria as rédeas da resistência estética à ditadura militar. O germe tropicalista permaneceria pulsante nos álbuns e espetáculos da cantora do período, mas sem ser um pastiche do movimento: estava mais próximo de uma decantação deste, um desdobramento, uma reelaboração estético-política que deu corpo ao desbunde.

O grande marco desse movimento foi justamente o espetáculo Gal a todo vapor, de 1971, que ganhou o acréscimo de Fa-tal em sua adaptação para disco. Urdida por momentos de melancolia, raiva e arroubos de alegria, a narrativa assinada pelo poeta Waly Salomão consistia em uma mensagem na garrafa para os exilados d’além-mar: meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo como dois e dois são cinco.

Eduardo Jardim sustenta que Gal a todo vapor demarcou o fim do Modernismo no Brasil, uma vez que as preocupações de raiz oswaldiana inexistiam na concepção do espetáculo. “Para seus criadores, o Tropicalismo – o movimento que os antecedeu – já tinha encerrado seu ciclo. Suas conquistas foram incorporadas e não era preciso voltar a elas”, escreveu o autor, no já citado livro de ensaios. Para ele, as canções de Waly e Jards Macalé presentes no espetáculo, em especial Vapor barato, são as realizações mais significativas dessa nova etapa – do fim de uma modernidade crítica para um abismo de definição imprecisa.

Sai de cena um terno e suave baby, I love you. O galante vocativo anglicano não morre, mas se transforma em uma honey baby. Um lamento gutural de um bicho triste, um grito agudo como a dor de quem o emite, projetado para ser ouvido a grandes distâncias. No espetáculo Recanto, de 2012, os dois vocativos coexistem na narrativa proposta para Gal por Caetano. No roteiro, as canções participam de um acirrado jogo semântico de luz e sombra em que não há vitoriosos nem perdedores definitivos. Há o Brasil, e nele urubus passeando entre girassóis, tigres e leões soltos nos quintais. Mas há também o importante lembrete de que precisa ter olhos firmes, pra este sol, para essa escuridão.