terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O homem que caiu na terra - David Bowie



Como Bowie transformou sua própria morte em uma obra-prima da ficção científica
Escrito por Brian Merchant
14 January 2016 // 06:12 PM CET








Para David Bowie, morrer não é o bastante. Ele transformou sua própria morte em um espetáculo que nos obriga a refletir sobre o derradeiro fim.

Bowie morreu há quatro dias, tempo suficiente para que as lembranças e homenagens sumissem de nossos feeds. Talvez seja a hora de voltar para nossa triste realidade que envolve Donald Trump, o ISIS, polícias repressoras e milícias. Talvez.

Mas não consegui evitar mais uma vez pensando no cantor. Talvez porque sua própria existência seja um antídoto para a monotonia incômoda do cotidiano. Ou talvez porque sua morte tenha sido, no fim das contas, uma de suas melhores performances.

Bowie vivia, respirava — e morreu mergulhado na — ficção científica. Para ser mais específico, o que ele fazia era ficção especulativa. O artista se inspirava em fantasia, ficção científica e todo tipo de informação alienígena para criar suas personas. No entanto, todas essas fantasias tinham como objetivo transformar o mundo em um lugar que aceitasse quem — e como — ele queria ser. Não consigo pensar em nenhuma outra pessoa capaz de alterar o mundo dessa forma, capaz de manipular o poder da performance a seu bel-prazer e suscitar evoluções sociais e culturais por onde passa.

Do seu primeiro hit, "Space Oddity", passando pelo revolucionário álbum no qual ele apresentou Ziggy Stardust ao mundo, e terminando com seu ato final como Lázaro em Blackstar, seu álbum de despedida, Bowie não interpretou sua visão pessoal de ficção científica. Ele estava vivendo-a. Até o último segundo.

Três dias antes de sua morte, Bowie lançou o clipe de "Lazarus", parte do épico de ficção científica “Blackstar” no qual ele percorre um mundo de astronautas mortos, espantalhos mutantes e velas eternas. O clipe mostra um homem, interpretado por Bowie, levitando em seu leito de morte. 


Ao assistir “Blackstar", é impossível considerar o crânio de astronauta cravejado de diamantes — o derradeiro fim do Major Tom, talvez — como pertencendo a outro que não o próprio Bowie.



Bowie sabia que, enquanto milhões de pessoas o veriam flutuando em uma cama de hospital, ele provavelmente estaria deitado em uma. Mesmo durante sua própria morte, ele usou a linguagem da ficção científica para nos instigar a pensar sobre nossa própria mortalidade. Muito apropriado para um homem que usou esse mesmo método para nos inquietar durante toda sua carreira, seja falando sobre convenções de gênero ou sobre a internet. Um homem que transformou a música pop em um instrumento por meio do qual fosse possível pensar e dançar ao som do futuro.

Muitos fãs reagiram à sua morte com elogios à sua androginia e às suas performances corajosamente eróticas, que teriam aberto as portas para o atual movimento genderqueer. “Bowie usava sua perfomance de gênero pouco convencional para questionar a visão do homem cisgênero e másculo tida pelo grande público", escreveu Christina Cauterucci, colunista do Slater. “A erótica estrela do rock, que mexia com a libido de homens e mulheres, fossem eles gays ou héteros, criou um espaço onde seus fãs poderiam explorar a multiplicidade da presença, da vitalidade e do desejo."

Quando Bowie apareceu vestido como Ziggy Stardust em Top of the Pops, um programa assistido por 14 milhões de pessoas numa época em que o mundo parecia muito menor, o impacto foi meteórico. Bowie ajudou a fundar um mundo onde adotar uma identidade de gênero não-tradicional não era apenas aceitável, e sim desejado. A importância da ficção científica em sua obra se perde em muitos desses comentários, mas não podemos esquecer que ela é um ponto crucial — afinal, foi ela que guiou toda sua arte rumo ao futuro. 


A ficção científica estava começando a invadir o cinema quando Space Oddity e Ziggy Stardust nasceram, no final dos anos 60 e no começo dos anos 70, respectivamente. No entanto, o mundo nunca tinha visto um deus do rock alienígena, muito menos um que dançasse ao som de óperas pop. (É bom lembrar que toda essa mitologia não foi criada apenas para justificar o uso de maquiagem no palco ou performances chocantes — tudo isso fazia parte de uma série de narrativas intrincadas envolvendo um apocalipse vindouro, uma raça alienígena chamada de "infinitos" e algo misterioso chamado trampolim de buraco negro). Sua mídia de escolha, a música, permitiu que Bowie explorasse assuntos tabu como a bissexualidade do jeito que só ele sabia— não é de se espantar que os excluídos da sociedade tenham se apaixonado pelo alienígena do rock. Além disso, ele transformou a ficção científica em algo legal, popular e perigoso, algo nunca feito antes.

Bowie nunca desistiu. Ao longo dos anos, ele adotou outros alter-egos alienígenas, entre eles Aladdin Sane e Thin White Duke. Em 1976, ele se tornou O Homem Que Caiu na Terra — literalmente um alien entre humanos. Mesmo depois de seus anos de glória, ele continuou a ousa e se envolveu em projetos como a criação de video games distópicos, o desenvolvimento de seu próprio navegador, a BowieNet, e a criação de programas que usavam tecnologias dos primórdios da internet. Enquanto Bowie criava o futuro, a cultura pop tentava alcançá-lo.

Assim, sua morte — e a obra de arte extremamente elaborada associada à ela— deixou todos em choque. Uma frase comum nos últimos dias foi: "achei que Bowie viveria para sempre".


 Roqueiros inabaláveis ficaram sem palavras. Há alguns dias, Steve Jones, ex-guitarrista do Sex Pistols, e Dave Ghrohl, do Foo Fighters, participaram da última edição de Jonesy's Jukebox, um programa de rádio. Durante aquela hora, o que ouvi foi ao mesmo tempo fascinante e desconcertante. Ambos passaram longos minutos totalmente mudos, ocasionalmente repetindo histórias sobre seus encontros com Bowie e discutindo teorias sobre a vida após a morte. (“Acredito numa energia que liga todos nós", disse Grohl, propondo que todos nascemos do Big Bang e que nos uniremos mais uma vez após a morte. "Eu não quero morrer", respondeu Jones).

Bowie também não queria. Blackstar (estrela negra, em português), é um termo utilizado para denominar um tipo de lesão cancerígena. Isso deixa claro que Bowie transformou o agente de sua própria morte em um último épico da ficção científica. É claro que ele usaria sua rica linguagem para nos trazer uma última visão da morte, ambiciosa e auto-referencial.

Esse "último álbum foi uma despedida cuidadosamente planejada", confirmou seu produtor. Suas músicas (e a peça off-Broadway que acompanha o álbum) falam sobre a morte e foram escritas para um público que buscaria consolo em suas obras após sua morte. A primeira frase de "Lazarus" é “Look up here, I'm in heaven.” ("Olhe para cá, eu estou no céu").

Assim, em vez de pensar num homem moribundo, nós escutamos suas palavras, vemos ele levitar, assistimos à sua última grande visão. Nesse momento, nós nos juntamos a ele.

É possível interpretar os corpos jovens e estranhos do clipe de "BlackStar" como a nova geração de excluídos, curvando-se sob o peso de sua própria alienação e encontrando esperança em um livro chamado BlackStar. Esse livro contêm o futuro, e a última profecia de Bowie diz que alguns de nós (ou todos) darão um passo à frente e lerão suas últimas palavras:

Something happened on the day he died
Spirit rose a metre and stepped aside
Somebody else took his place, and bravely cried
(I’m a blackstar, I’m a blackstar)
Tradução: Ananda Pieratti


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domingo, 27 de dezembro de 2015

A interessante música alemã

Nem tudo eram rosas


Dos primeiros ensaios na cozinha às paradas de sucesso, o duo berlinense Rosenstolz trilhou um caminho árduo. Hoje, até o prefeito de Berlim corre para vê-los no palco. Mas não foi sempre assim.

Rosenstolz ficou muito tempo associado à cena gay

Eles encerraram sua última turnê com chave de ouro: após 27 shows esgotados por todo o país, o duo berlinense Rosenstolz levou 17 mil fãs berlinenses ao delírio em um show a céu aberto. Até Klaus Wowereit, prefeito da capital, estava presente. Uma semana após seu lançamento, o atual disco Herz (Coração) foi premiado com o disco de ouro e em oito semanas alcançou o de platina.

Mas a carreira de AnNa R. e Peter Plate não foi sempre assim. Para muitos, os Rosenstolz eram uma banda difícil de entender. Primeiro porque, durante muito tempo, o duo ficou reservado à cena gay (Peter assumiu sua homossexualidade aos 19 anos). Além disso, sua música não é de fácil classificação: os Rosenstolz gostam de percorrer os caminhos mais exóticos para chegar à música pop.

Mesmo no auge do sucesso, o duo ainda marca presença na cena onde começou. Peter Plate é hoje dono de um bar em Schöneberg, o bairro gay de Berlim. A banda também se envolve ativamente em questões sociais: a cada turnê, os Rosenstolz doam centenas de milhares de euros à Deutsche Aidshilfe, a associação alemã de ajuda aos portadores do HIV.

Ensaios na cozinha
Desde pequena, AnNa R. tentava a carreira de cantora na então Berlim Oriental, embora não tenham sido poucas as vezes em que foi aconselhada a desistir dos ambiciosos planos. Com uma canção de Whitney Houston, ela lutou por uma vaga na Escola de Música de Friedrichshain, bairro onde nasceu. Sem sucesso.

Peter Plate nasceu no outro lado mundo, em Nova Délhi, Índia, onde seu pai trabalhava como diplomata, e foi trazido mais tarde pelo padrasto para a região do Harz, no estado alemão da Baixa Saxônia. Após a queda do muro de Berlim, Peter tomou a decisão acertada de ir para a capital, que vivia então seus tempos áureos.

Peter logo encontrou um apartamento e foi o próprio locador quem lhe apresentou AnNa. Os dois começaram imediatamente a compor juntos. Os primeiros ensaios aconteceram na cozinha do apartamento de Peter, escondido nos fundos de uma velha casa - o banheiro, diga-se de passagem, ficava do lado de fora, na escadaria.

Os primeiros shows
O primeiro show foi coisa para amigo: dos 30 presentes, apenas 15 eram pagantes. Mesmo assim, AnNa levou a cabo sua idéia de vestir uma roupa diferente a cada canção. Um pesadelo para Peter, que teve de lidar com a inquieta platéia sozinho. Mas os shows continuaram até que o duo chamou a atenção de Tom Müller, naquela época produtor de Nina Hagen. Juntos, eles lançaram em 1992 o álbum de estréia Soubrette werd' ich nie. O disco vendeu mal, mas nele estão canções que hoje fazem parte de qualquer show do duo.

Dois anos depois, em 1994, veio o álbum seguinte, Nur einmal noch (Só mais uma vez). Eles juntaram algum dinheiro e fizeram um vídeo, que nenhuma emissora transmitiu. Mas enfim uma boa notícia: em 1995, todos os mil ingressos para a apresentação de ambos na casa de shows Metropol foram vendidos e uma data extra teve de ser arranjada. AnNa e Peter estavam no caminho certo.

O contrato
Em 1996, a banda passou ao universo das grandes gravadoras, ao assinar um contrato com a Polydor. Em 1997, veio o álbum Die Schlampen sind müde (As vagabundas estão cansadas), que alcançou a posição 33 da parada. Um ano depois, veio o convite para disputar quem representaria a Alemanha no festival Eurovision e o Rosenstolz acabou ficando em segundo lugar. Uma derrota que foi, na verdade, uma vitória: a banda caiu nas graças do público e, pela primeira vez, emplacou um single na parada alemã.

O disco Zucker (Açúcar), de 1999, foi sucesso garantido: emplacou direto na segunda posição da parada. O caminho era sem volta: hoje, eles são figurinha carimbada na cena musical alemã e os discos que seguiram passam longas temporadas nas paradas de sucesso.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Esse Brasil...

Crítica social e diversidade musical no show de Criolo em Berlim


Um dos mais celebrados artistas da nova geração retorna à capital alemã para apresentar disco "Convoque seu Buda", mistura certeira de música urbana e ritmos brasileiros.



Foi quase uma experiência religiosa – Criolo tocou o coração e a consciência do animado público que, no sábado passado (24/01), lotou mais uma apresentação do músico brasileiro em Berlim.

Entre alemães e brasileiros, a entusiasmada audiência dançava e cantava sucessos de Nó na orelha, álbum de 2011 que levou o trabalho do paulistano ao grande público, e de Convoque seu Buda, o mais recente disco, lançado em novembro de 2014.

"Esta oportunidade proporciona encontros com novas culturas, com outras formas de se pensar o mundo e, em algum momento, isso pode desaguar em alguma parte da minha construção artística", disse Criolo, em entrevista à DW Brasil.

No palco, as palavras de Criolo criam um vívido painel da sociedade brasileira, que, visto de fora, parece difícil de ser celebrado. Sua poesia tem a força crítica do rap, mas o músico foge dos clichês baseados no ódio, criando belas cadências, embaladas por uma mistura original de hip hop e ritmos brasileiros.
"É uma emoção muito grande. Nunca imaginei viver o que estou vivendo, tanto com o Nó na orelha, quanto com este novo álbum. São oportunidades únicas e especiais de propor um olhar nosso, que encontra o olhar do outro – afinal de contas, são pontos de vista", comentou.
Trabalho coletivo


Assim como no disco anterior, a música de Criolo é guiada pelo trabalho coletivo. Convoque seu Buda tem produção musical de Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman.

"Eu cheguei com as canções, e outras canções foram construídas em estúdio. Esta pluralidade surge mais uma vez do encontro com o Marcelo e o Daniel, contribuindo com a construção musical desse momento", comentou Criolo.

Além da dupla de produtores, Criolo contou com a colaboração dos compositor Douglas Germano, Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, das cantoras Tulipa Ruiz e Juçara Marçal, e do americano Money Mark, conhecido por suas colaborações com o grupo de rap nova-iorquino Beastie Boys.

"Houve também uma participação maior de todos os músicos que me acompanham na estrada, criando assim uma unidade sonora que reflete as experiências e as vivências desses anos de encontro e trabalho", disse o paulistano.

Cabral e Ganjaman também fazem parte da afiada banda que acompanhou Criolo em sua apresentação em Berlim, que teve ainda as participações especiais do rapper alemão Peter Fox e de membros da banda Seeed.

Crítica pungente
Com Convoque seu Buda, o músico mais uma vez apresenta novas possibilidades para o caminho trilhado pelo rap nascido em São Paulo. A raiz do disco está na periferia, e ela se reflete na intensidade das batidas, na diversidade musical, nos versos corpulentos e na crítica social contundente.

A crítica social de Criolo é feita de forma criativa e sem deixar de ser pungente – as letras são um retrato das diferenças, da injustiça e da criminalidade brasileiras, mas elas sempre revelam respeito e até mesmo ternura pelos seus personagens.

Assim, Criolo fala de um funcionário de bufê que serve festas de luxo em Cartão de visita, de meninos que seguram fuzis na densa Plano de voo, de um padeiro que não chegou ao trabalho devido à greve no samba Fermento pra massa e de um morador de rua usuário de crack em Casa de papelão.

"O Brasil é um país jovem, que herdou um modo de se criar uma sociedade que tem como reflexo uma situação muito delicada. Nesse período de quatro anos entre um álbum e outro, o que eu percebo é que cada vez mais nossos jovens estão se reunindo, se organizando e trabalhando para que tenhamos uma sociedade mais justa", disse o artista.
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sábado, 5 de dezembro de 2015

Mais um adeus na dramaturgia

No velório, colegas artistas destacam a grandeza da atriz Marília Pêra.


05/12/2015 18h51Rio de Janeiro
Paulo Virgílio – Repórter da Agência Brasil












A atriz Marília Pêra participou, em outubro de 2015, do programa  Kinoscope, da Rádio MEC FM, da EBCAna Paula Migliari/Arquivo TV Brasil





Dezenas de amigos, em grande parte colegas de profissão, estiveram na tarde de hoje (5) no velório da atriz Marilia Pêra, que morreu na manhã deste sábado, aos 72 anos, de um câncer no pulmão. O velório ocorreu na casa de espetáculos que leva o nome da atriz, a Sala Marília Pêra do Teatro do Leblon, na zona sul do Rio.

O acesso ao teatro foi restrito até às 15h30 a familiares e amigos. Somente a partir desse horário é que foi permitida a entrada de fãs e de jornalistas, antecedendo a saída do corpo para o sepultamento, marcado para às 17h no Cemitério São João Batista, em Botafogo, também na zona sul carioca.

No ano passado, já enfraquecida pela doença, Marília Pera dirigiu a atriz Cláudia Ohana numa remontagem da peça Callas, que a própria Marília havia interpretado em 1996, sobre a vida da célebre cantora lírica Maria Callas. Ao chegar para o velório, Claudia Ohana lembrou que, mesmo doente, Marília não perdeu a firmeza. “Ela estava bem fraca, mas era muito exigente, com o horário, com a fala, com o texto. Ela era muito firme, mas com a voz calma, sempre doce. Por causa dela, eu ganhei coragem para fazer um monólogo”, contou a atriz.

Outra atriz, Joana Fomm, não conseguiu conter a emoção ao falar da colega, com quem chegou a contracenar em um especial da TV Globo. “A Marília foi uma das maiores atrizes do mundo”, disse Joana, com a voz embargada. “Ela foi muito bacana comigo quando atuamos juntas. Também foi muito generosa comigo quando eu estive doente. Marília era uma pessoa especial”.

A atriz Nicette Bruno chegou de braços dados com as filhas, as também atrizes Beth Goulart e Bárbara Bruno. “Marília merece a nossa homenagem por tudo que fez pelo teatro, pela arte e pelo Brasil”, declarou Beth Goulart, ao entrar para o teatro onde o corpo foi velado.

Estiveram também no velório os atores Miguel Falabella, Marcos Caruso e Gracindo Júnior e as atrizes Arlette Salles, Cássia Kiss e Marieta Severo.

“Estou pasma com a perda de uma das maiores atrizes brasileiras, quando ainda se esperava muito dela”, disse a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda, em declaração postada em seu perfil no Facebook. “Acompanhei a carreira de Marília Pera desde, praticamente, o início e sempre notei nela uma atriz única, inimitável, com humor, leveza, força e intensidade, com total domínio do personagem e de tudo que se passava em cena. Era absolutamente sensacional assisti-la atuando”, afirmou.

Uma das últimas participações de Marília Pera foi no programa Kinoscope, da Rádio MEC FM, da EBC no Rio de Janeiro. A entrevista foi feita pelo produtor e apresentador Fabiano Canosa, em setembro passado na casa da atriz, em Ipanema, e foi ao ar em 15 de outubro último.

Marília revelou detalhes de sua trajetória ao apresentador do programa, dedicado à música feita para o cinema. Canosa abriu o programa com um sucesso de Carmen Miranda na voz de Marília, que também relembrou as outras cantoras que reviveu no teatro, como Dalva de Oliveira, Ellis Regina e Maria Callas.

Ainda no programa, que vai ao ar às quintas-feiras, às 22h, Marilia Pêra falou do filme Pixote, de Hector Babenco, que lhe valeu em 1981 o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos dos Estados Unidos. Na película, a atriz interpretou a prostituta Sueli. "Um radialista perguntou se eu era prostituta mesmo. Fui fazer uma entrevista na rádio e ele perguntou. E eu falei: que elogio!", lembrou.

Abaixo o link com o áudio do programa.



Edição: José Romildo

sábado, 14 de novembro de 2015

Boa musica brasileira

De Elza Soares ao grupo As Bahias e a Cozinha Mineira: veja artistas que debatem as questões de gênero
Com seu caráter agregador, político e mobilizador de massas, a música é uma poderosa aliada como ferramenta de transformação social










  • Montagem/Divulgação/Instagram
por Luciana Rabassallo
29 de Out. de 2015 às 18:30



Uma questão da prova de Ciências Humanas do Enem 2015 (Exame Nacional do Ensino Médio) reacendeu na mídia e nas redes sociais inúmeros debates sobre o machismo e as questões de gênero. O exercício, que envolveu a célebre frase da escritora francesa Simone de Beauvoir ("Não se nasce mulher, torna-se mulher"), foi citada em uma pergunta sobre as lutas feministas da metade do século XX.

Imediatamente, políticos conhecidos por discursos conservadores como os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marcos Feliciano (PSC-SP), também utilizaram as redes sociais para condenar a referência à obra O Segundo Sexo, de 1949, em uma prova nacional aplicada para aproximadamente seis milhões de pessoas. A coisa ficou ainda pior quando, na segunda etapa do Enem, o tema da redação foi "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira".

Segundo a visão dos deputados, fomentar o debate acerca das questões de gênero e fazer com que os jovens que participaram do exame reflitam sobre a violência e o machismo incrustado na sociedade brasileira é uma “doutrinação ideológica da esquerda”. Enquanto o país se divide entre os que pensam como Bolsonaro e os ativistas que trabalham de forma incansável para garantir a igualdade de gênero, a luta chega à diversas formas de expressões artísticas. Entre elas, óbvio, está a música. Com seu caráter agregador, político e mobilizador de massas, a técnica de combinar os sons de forma melodiosa é uma poderosa aliada como ferramenta de transformação social.
Nos últimos meses, inúmeros artistas, que englobam novatos como As Bahias e a Cozinha Mineira até a diva Elza Soares, têm questionado em canções, discursos e projetos visuais as relações de poder configuradas por meio de uma concepção de masculinidade hegemônica, reconhecida e legitimada socialmente. Esses artistas questionam os padrões, as normas estéticas e os códigos de masculinidade que, ao serem chancelados pela sociedade, se tornam corriqueiros. A banalização da violência e da intolerância, que muitas vezes são confundidas com a virilidade masculina, são alguns dos pontos abordados por eles. Afinal os gêneros estão muito além da questão homem-mulher.

Elza Soares e o grito libertário de A Mulher do Fim do Mundo


A cantora Elza Soares, de 78 anos, cujo tempo de estrada ultrapassa a marca de meio século, lançou no começo de outubro o primeiro álbum da carreira dela formado integralmente por canções inéditas. A Mulher do Fim do Mundo, fruto do encontro entre a artista carioca e a estética musical contemporânea de São Paulo, faz uma ode às mulheres brasileiras.

“É um disco feminista”, afirma Elza, que é a personificação de várias minorias - nasceu mulher, negra e pobre. “As letras são fortes e contundentes. Um reflexo da força emanada pelas mulheres que enfrentam um difícil cotidiano”, explica a intérprete, antes de sentenciar: “Ser mulher no Brasil é uma coisa muito difícil”. A biografia da artista ilustra de forma contundente sua própria afirmação: casou-se com 12 anos de idade, obrigada pelo pai; aos 13, foi mãe e, aos 21, viúva, e com quatro filhos para criar.

Entre os temas abordados no álbum está a violência doméstica. “Você vai se arrepender de levantar a mão para mim”, canta Elza no single “Maria da Vila Matilde”. Responsável pela letra, o compositor Douglas Germano conta que sofreu com o problema na infância. “Sou filho de uma Maria. Eu vi essa Maria, minha mãe, apanhar em casa. Era garoto e a única coisa que conseguia fazer era sentir medo de meu pai e dó de minha mãe.”

Segundo Germano, Elza foi a primeira mulher que ele viu, ainda garoto, “falar sobre esse assunto”. A história de “Maria da Vila Matilde” se passa nos anos 1970 – “quando não havia lei Maria da Penha”, apesar de haver uma citação a um celular na letra –, e faz menção ao telefone 180, número de um serviço de denúncia da violência contra a mulher.

A Mulher do Fim do Mundo passeia por fragmentos de uma cidade narrada à luz do núcleo criativo composto por Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos, com direção artística de Celso Sim e Romulo Fróes, e produção de Guilherme Kastrup. As 11 composições são assinadas tanto por integrantes do grupo – formado especialmente para a concepção do disco – quanto por outros artistas paulistas, como Cacá Machado, Clima e José Miguel Wisnik.

Em “Pra Fuder”, Elza narra a libido feminina de forma lírica, direta e libertária: “Olho pro meu corpo sinto a lava escorrer/ Vejo o próprio fogo não há força pra deter/ Me derreto tonta, toda pele vai arder /O meu peito em chamas solta a fera pra correr”. O disco segue com “Benedita”, que conta a história de uma travesti que “leva o cartucho na teta, abre a navalha na boca e tem uma dupla caceta”. Há ainda uma homenagem as mães: “Levo minha mãe comigo /pois deu-me seu próprio ser”, diz a letra de “Comigo”.

Todas as mulheres são representadas pela sabedoria de Elza Soares em A Mulher do Fim do Mundo.

Mulher, de As Bahias e a Cozinha Mineira

Formada em 2011 pelos artistas Assussena Assussena, Rafael Acerbi e Raquel Virgínia, que à época eram estudantes do curso de História na Universidade de São Paulo, a banda As Bahias e a Cozinha Mineira se prepara para lançar no próximo dia 7 de novembro, no Grazie a Dio, em São Paulo, o disco Mulher, quem tem produção de Deivid Santos - saiba mais aqui.

Com influências de nomes como Gal Costa, Novos Baianos, Amy Winehouse e Ney Matogrosso, o grupo propõe uma discussão acerca do machismo, da misoginia e de qualquer tipo de intolerância, seja ela de cunho religioso, étnico, social ou sexual. No single “Apologia às Virgens Mães”, as poderosas vozes de Assussena e Raquel contrapõem o sagrado e o profano ao reiterar a santidade de todas as mulheres – castas ou não.

Veja o clipe de “Apologia às Virgens Mães”:
“Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?
Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?
Quantos beiços beberam do teu peito o afã?
E dos seios sugaram o sulco sem dor, dos teus zelos
Senhora de saia, de ventre predestino,
Quantos tempos cruzaram num ponto de cruz teu destino?
Oh mães de Jesus, oh virgens, todas virgens
Já choraram teu choro, prantos correm na História
Feito rio que erode do espaço às margens: trajetória
E de um traje contido, de branco e grinalda na média,
Abusaram o desejo do corpo e teu sonho trajou de tragédia
Menina de saia de gozo pré-extinto
Quantos tempos bordaram o calado bordel de teu instinto?
Oh mães de Jesus, oh virgens, todas virgens
Na sacola da feira, tem de besteira feijão
Tem também muitas eras de carga alçada em tua mão
Pudera ter tempo, senhora, tanto tempo pudera e tem
Do fruto da feira, vambora, tempos colheitas de tempo têm
Deles, tantos puseram, oh dona, de peso no saco da feira
Se de Madalena o filho, Madona
Pesa mais: não tem eira nem beira
Não tem eira nem beira, nem eira nem beira.”

LAY e a Bucepower Gang

Como combater a onda de homens que compartilham, sem o consentimento da parceria, fotos íntimas de suas namoradas, esposas, colegas ou amantes nas redes sociais? Remover o véu pudico que encobre o nu feminino é uma boa estratégia. Foi com essa premissa que Lay Moretti criou o tumblr Bucepower Gang, no qual mulheres desconhecidas do Brasil todo podem publicar "selfies de ass" e “nudes” com o intuito de fomentar um debate acerca da liberdade sexual feminina.

Nesse contexto, a artista que mora em Osasco, cidade localizada na zona metropolitana de São Paulo, prepara sua estreia como rapper com o EP #129129, que tem produção de Léo Grijó e deve chegar às plataformas de streaming em 2016. As rimas de LAY pregam a sororidade em canções como “Ressalva”, na qual ela clama por “Mais peitos, menos tretas!”. As influências da artista vão de Dina Di a Lil' Kim, e a estética gira em torno da retomada dos timbres da década de 1990.

Selvática, de Karina Buhr

A cantora Karina Buhr foi dominada por uma urgência inquietante que a impulsionou a trabalhar de forma rápida no sucessor de Longe de Você (2011) assim que recebeu um exemplar de Desperdiçando Rima, livro lançado pela artista em março deste ano. “Tive uma vontade incontrolável de começar a fazer melodias para alguns poemas que estão na obra como, por exemplo, ‘Rimã’ e ‘Desperdiço-te-me’”, conta.

Gravado no Estúdio YB, em São Paulo, o disco Selvática, que chegou às plataformas de streaming em outubro, também tem canções inéditas, como a faixa-título, que é inspirada no livro Gênesis, o primeiro do Antigo Testamento. “Eu leio a bíblia sempre que posso por conta do caráter de fábula que as histórias carregam. Esses textos tiveram grande influência na canção que dá nome ao disco”, explica Karina.

“Fui inspirada pelos animais selváticos e pela maneira como as mulheres são descritas nas narrativas sagradas”. A letra faz uma ode às guerreiras Daomé - único exército formado exclusivamente por amazonas registrado na história recente -, que lutaram contra a colonização do continente africano no século 19.

A artista promove um necessário debate sobre a servidão feminina e os valores históricos que rebaixam a mulher na sociedade. “Hoje eu não quero falar de beleza /Ouvir você me chamar de princesa”, previne Karina na letra de “Eu Sou um Monstro”, faixa que convoca as mulheres para lutarem contra os padrões de beleza pré-estabelecidos. Selvática ainda conta com duas participações especiais: Denise Assunção, que integrou a lendária Isca de Polícia - banda paulistana que agitou a cena musical independente na década de 1980 -, e Elke Maravilha, modelo e atriz.

Ah! E ainda temos a foto do encarte, na qual Karina mostra os seios, que foi banida de redes sociais como Facebook e Instagram.

O feminino e o masculino de Liniker

O grupo Liniker, que recentemente se tornou um viral nas redes sociais com o lançamento do EP Cru, é formado por Guilherme Garboso (bateria), Márcio Bortoloti (trompete), Rafael Barone (baixo), Willian Zaharanszki (guitarra), Bárbara Rosa (backing vocal), Ekena Monteiro (backing vocal) e Renata Santos (backing vocal).

A banda de Araraquara, no interior de São Paulo, tem como característica canções que fazem um profundo mergulho no balanço da soul music. O destaque, contudo, é o vozeirão à Tim Maia do vocalista Liniker Barros, que imprime autenticidade e poder aos singles “Caeu”, “Louise du Brésil” e “Zero”. O visual adotado pelo cantor, que mescla bigode, batom, rímel, brincos, colar e vestido, desconstrói de forma enfática os códigos imputados ao gênero masculino.


As faixas “Louise du Brésil”, divulgada no dia 16 de outubro, e “Zero”, liberada no dia 22, já ultrapassaram as 30 mil visualizações no YouTube. No Facebook, apenas a canção “Zero” já bateu a marca de 800 mil acessos.